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Transparência, imperativo da Gestão eclesial

TRANSPARÊNCIA, IMPERATIVO DA GESTÃO ECLESIAL!

                                                                                                                                Dom Edson Oriolo1

Dialogando com ministros ordenados e lideranças, em variadas realidades, quer no âmbito pastoral, quer nos ambientes de reflexão sobre gestão eclesial, tenho respondido a uma mesma questão: como reagir, no âmbito eclesial, à crise econômica que, assolando toda a sociedade, não deixa de atingir, também, nossas comunidades de fé? Tenho buscado abordar o tema sem a pretensão de “inventar a roda”. Penso que no cenário de crise econômica e crise de confiabilidade, a resposta da gestão eclesial deva ser o cultivo dos próprios valores da gestão, iluminada pela “fé”, tendo por paradigma o “Evangelho”. Entre esses valores, destaca-se a transparência.

Está demonstrado que o sucesso na gestão eclesial está atrelado à confiabilidade que o gestor ou grupo de gestão conseguem imprimir às suas iniciativas. A própria crise econômica pela qual passamos é consequência da falta de transparência, em razão da improbidade que ela revelaria. Também os gestores eclesiais são, de mais a mais, questionados por essa realidade. Por um lado, diante da sociedade laica, a Igreja é arrolada em face de sua gênese de instituição do “terceiro setor”, com deveres legais diante dos poderes públicos. Por outro lado, também os fiéis, esperam de seus pastores e líderes uma administração transparente com a verdade, vértice de nossa pregação.

A crise econômica é ocasião de crescimento e faz surgir uma “cultura da transparência”. A gestão eclesial não pode ser indiferente a essa onda portentosa. Se nos percebemos questionados, devemos responder positivamente, superando lacunas que, infelizmente, incidem sobre nosso modo de ver e conduzir a administração. Para os ministros ordenados, na sua maioria sérios e dedicados, aqui está uma oportunidade de pôr em prática o paradigma conciliar do “protagonismo dos leigos”. É necessário que em face da “cultura da transparência”, nós não apenas respondamos com protagonismo, mas sejamos incentivadores na estruturação de paróquias pautadas em valores inalienáveis.

Estamos vivendo em uma sociedade onde nunca se falou tanto em transparência. As pessoas sentem esse anseio e protagonizam a aspiração por uma cultura global de transparência. É crescente a reivindicação por instituições, paróquias e organizações públicas, governamentais, políticas, assistenciais, privadas e religiosas pautadas pela transparência na administração de recursos. Mesmo dos meios de comunicação se cobra transparência de fontes e métodos como condição para a credibilidade. A reivindicação por conhecer como funcionam as entranhas da administração das dioceses, paróquias, instituições, congregações religiosas, como as decisões são tomadas, como são aplicados os recursos, ressoam em todos os ambientes. 1 Bispo Auxiliar na Arquidiocese de Belo Horizonte-MG.

A transparência assegura três importantes movimentos da gestão eclesial: legitimidade, apoio dos paroquianos e vinculação de confiança. A legitimidade é a relação objetiva entre a fé que nos motiva e nossas atitudes em todos os âmbitos da vida eclesial. Como falar contra o consumismo, mas dar valor superlativo ao supérfluo e dispensável? O apoio dos paroquianos se conquista na medida em que participam efetivamente na administração da comunidade, isto é, quando doam e conseguem ver para onde está sendo canalizado o recurso. É necessário gerenciar bem os recursos e assegurar respostas rápidas a quem doa, estabelecendo laços de comunicação rápida e produtiva. O vínculo de confiança se conquista quando se assume a transparência como paradigma e caminho para a honestidade, clareza, independência, falar com respeito, educação, empatia (colocar-se no lugar do outro), ganhar o respeito dos fiéis pelo que se prega e vive.

A Igreja não está ao largo deste fenômeno. É imprescindível - porque não dizer urgente - a transparência na administração das dioceses, congregações religiosas, paróquias, comunidades eclesiais, para a credibilidade das propostas e da própria missão da Igreja, diante da sociedade organizada e de seus fiéis. A transparência evoca outras realidades que se supõe: integridade, honestidade, sanidade financeira, empatia e fidelidade ao sentido da missão. Neste sentido, as Igrejas Particulares (arquidioceses, dioceses e afins), invocando o princípio da “diocesaneidade”, vêm procurando responder a esse imperativo com processos que primam pela transparência, mesmo à custa de coação de todos os entes comprometidos, em vista de um mesmo fim.

O conceito de “diocesaneidade” é de grande relevância teológica, canônica e pastoral. Incide, também, e de forma relevante, sobre a gestão eclesial. No passado, a gestão era pensada de forma local, quase sempre paroquial, com processos marcadamente dispersos e muitas vezes sem critérios objetivos que permitissem um acompanhamento salutar. Na maioria das vezes, o arbítrio de cada responsável era o critério para a administração dos bens temporais. No entanto, o atual contexto torna imprescindível, também no campo da gestão, o cultivo do paradigma da diocesaneidade. A gestão pensada no macro, isto é, na comunhão de toda a Igreja Particular, nas suas diversas instâncias, assegura a sanidade e a transparência, essenciais em cada célula que forma a Igreja de Cristo, integralmente presente em cada família diocesana. Exemplo disso é a experiência efetivada na Arquidiocese de Belo Horizonte, condensada no precioso volume: Documento 5 – Cúria Metropolitana: normas, procedimento e orientações.

Tornando-me bispo auxiliar do arcebispo de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, recebi deste a missão de acompanhar a gestão na arquidiocese e pude perceber o belo caminho já percorrido nesta Igreja Particular e como é importante fazê-lo. Transparência, na acepção que motiva a intensa reorganização administrativa da arquidiocese da capital mineira, não é apenas “prestação de contas”, isto é, uma atitude local e sem repercussão no todo eclesial, mas ações operacionais padrão, que se subordinam a um processo possível de cálculo, governo e controle, no nível arquidiocesano. Segurança legal para ministros ordenados e líderes, garantia de probidade administrativa e, sobretudo, possibilidade de cumprimento da missão e foco na missão evangelizadora de proclamar a Palavra de Deus.

A Igreja tem a missão de ser transparente. Agir de acordo com a verdade é garantia de sucesso em nossas inciativas e, em longo prazo, de felicidade e realização, no âmbito pessoal e comunitário. Devemos conhecer e aderir à organização fundada na transparência, aderirmos e nos comprometemos nela, como instrumento eficaz para escolhermos sempre o que é justo e de acordo com o nosso chamado e ideal, falando uma mesma língua e baseados nos mesmos processos, crescendo como instituição peculiar, com a bela missão de levar a boa-nova de Jesus Cristo.